Quatro meses depois de surpreender o mundo com uma lista agressiva de tarifas revelada nos jardins da Casa Branca, Donald Trump voltou a agitar os mercados com uma nova rodada de medidas protecionistas. Embora a reação dos investidores tenha sido mais contida desta vez, os impactos econômicos devem se intensificar nas próximas semanas.
As novas tarifas, com média de 15%, representam um salto significativo em relação ao ano anterior — quase seis vezes mais altas — e colocam os Estados Unidos em um patamar tarifário não visto desde os anos 1930. Países com superávit comercial com os EUA foram os mais atingidos, enfrentando taxas de 15% ou mais. Em casos específicos, como a Suíça e o Canadá, os impostos chegaram a 39% e 35%, respectivamente.
Até aqui, o cenário global surpreendeu pela resiliência. A antecipação de exportações ajudou a proteger parte das economias asiáticas e evitou, por ora, um aumento abrupto nos preços aos consumidores norte-americanos. Mas isso pode estar prestes a mudar.
O economista Raghuram Rajan, ex-chefe do FMI e ex-presidente do banco central da Índia, alertou que o mundo enfrenta agora um verdadeiro choque de demanda. "Muitos bancos centrais devem considerar cortes nas taxas de juros à medida que a atividade desacelera", afirmou à Bloomberg.
Apesar de oferecer alguma previsibilidade aos fabricantes, o novo pacote tarifário ainda traz muitas incertezas. Novas medidas voltadas para setores estratégicos — como farmacêutico, semicondutores e minerais críticos — devem ser anunciadas nas próximas semanas. Além disso, a legalidade das chamadas tarifas "recíprocas" ainda está sendo debatida nos tribunais norte-americanos.
O uso político das tarifas também ganhou força. Nos últimos meses, Trump ameaçou países como Brasil, Índia e Canadá com base em questões geopolíticas e políticas internas, sinalizando que os impostos estão sendo utilizados como instrumento de pressão além do comércio.
Se a nova rodada entrar em vigor como planejado, a tarifa média dos EUA pode subir para 15,2%, um salto expressivo em relação aos 2,3% registrados antes do retorno de Trump à presidência. Cálculos da Bloomberg Economics indicam que esse aumento pode reduzir o PIB dos EUA em até 1,8% e pressionar os preços em cerca de 1,1% ao longo de dois a três anos.
Os países do USMCA (Canadá e México) estão entre os mais protegidos, com margem para renegociar e com exclusões parciais já em vigor. Por outro lado, a Suíça sofreu um golpe direto com a tarifa de 39%, que fez o franco suíço recuar.
Embora a China tenha sido poupada nessa última rodada, um novo embate pode estar se formando. Um possível adicional de 40% sobre mercadorias "transbordadas", numa referência velada a exportações camufladas vindas da China, está em análise, mas sem critérios claros de aplicação.
Do ponto de vista doméstico, Trump aposta que as tarifas vão gerar receita, estimular a produção interna e reduzir o déficit comercial, tudo isso sem prejudicar a demanda. Porém, economistas alertam para o risco de os consumidores americanos pagarem a conta, especialmente se os exportadores repassarem os custos.
Para o Federal Reserve, a situação cria um dilema. Embora a inflação gerada por tarifas possa ser temporária, há risco de persistência nos preços. Jerome Powell, presidente do Fed, sinalizou cautela, recusando-se a ceder às pressões da Casa Branca por cortes de juros.
No cenário internacional, ainda não houve uma reação em cadeia de retaliações, mas a tensão é crescente. Como apontou Stephen Olson, ex-negociador comercial dos EUA, o comércio global está se aproximando perigosamente de uma era de "lei da selva", onde regras são substituídas por barganhas bilaterais e medidas unilaterais.
“Não pense que isso é o fim do jogo”, disse Olson. “Para Trump, tudo isso é parte de um show contínuo, e novos choques tarifários devem continuar surgindo no radar global.”
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