A política tarifária adotada pelos Estados Unidos vem provocando distorções crescentes na economia global. Com tarifas médias elevadas a 13,5%, o maior nível desde a década de 1930, o ambiente global de comércio e investimentos começa a se reconfigurar, pressionado por incertezas regulatórias, custos crescentes e retração na confiança empresarial.
Desde abril de 2025, os EUA vêm aplicando tarifas progressivas sobre praticamente todas as importações, com alíquotas que já chegaram a 145% em produtos chineses. Apesar de negociações preliminares com países como União Europeia e Japão, novas elevações tarifárias estão prometidas para agosto caso os acordos não avancem.
Essas barreiras comerciais, além de reconfigurar o padrão de fluxo global de bens, já impactam diretamente as decisões de investimento. Projeções apontam queda de até 5% nos investimentos fixos globais em 2025, com retração no comércio internacional a metade do ritmo observado em 2024. A estimativa é que o PIB mundial possa encolher entre 0,4 e 1 ponto percentual até 2026, enquanto economias avançadas enfrentariam aumento de até 0,5 ponto na inflação.
No Brasil, os efeitos ainda são limitados, com impacto atual de -0,05% no PIB. No entanto, um cenário com sobretaxas mais altas, como uma tarifa de 50%, poderia cortar 0,41% do PIB já no primeiro ano, afetando especialmente o agronegócio (café, carnes, suco de laranja), além de adicionar até 0,7 p.p. na inflação. Outros mercados emergentes também vêm enfrentando maior volatilidade financeira, elevação nos custos de financiamento e pressão sobre o câmbio.
Setor automotivo: As tarifas elevaram os custos de insumos e peças importadas. Fabricantes americanos já repassam os aumentos aos preços finais, com destaque para os veículos elétricos, que podem ter alta de até 20%. A Europa projeta queda de até 6% nas exportações do setor para os EUA.
Tecnologia e eletrônicos: Produtos importados da Ásia já encareceram entre 7% e 9%. Isso pressiona tanto a produção de tecnologia de consumo quanto os insumos essenciais à indústria.
Agronegócio: Exportadores de commodities agrícolas observam retração na demanda americana e realocação de fluxos comerciais, o que pode afetar preços globais de alimentos e insumos.
Investimento estrangeiro direto: A incerteza regulatória e a ausência de clareza nos rumos das negociações tarifárias afastam novos projetos de longo prazo, especialmente nos países em desenvolvimento.
A escalada tarifária também enfraquece a cooperação internacional e compromete o funcionamento dos sistemas multilaterais de comércio. Com mais países adotando medidas unilaterais para proteger suas economias, cresce o risco de uma fragmentação mais duradoura das cadeias produtivas globais. Empresas em setores de tecnologia e manufatura avançada já relatam necessidade de redesenhar cadeias produtivas, um processo que pode levar anos para se estabilizar.
Para os consumidores americanos, os efeitos já estão no dia a dia: preços mais altos em eletrônicos, automóveis e alimentos importados reduzem o poder de compra e alimentam a inflação interna, em meio a uma economia com sinais de desaceleração.
A continuidade dessa estratégia tarifária, sem avanço em acordos multilaterais, tende a aprofundar o enfraquecimento da economia global e limitar o potencial de uma recuperação sustentável no pós-pandemia.
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