Macroeconomia Federal Reserve

Trump pressiona por corte forte nos juros, mas enfrenta resistência crescente no Fed

Apesar da pressão de Trump por corte agressivo nos juros dos EUA, o Federal Reserve sinaliza cautela diante do cenário econômico.

16/09/2025 10h05
Por: Cláudia Lívia
Trump pressiona por corte forte nos juros, mas enfrenta resistência crescente no Fed

Donald Trump parece estar numa via de mão única rumo a mais uma frustração: sua insistente pressão para que o Federal Reserve (Fed) promova cortes de juros substanciais provavelmente não surtirá o efeito que ele espera. Ele não conseguiu remover a governadora Lisa Cook, e, embora tenha feito declarações altissonantes, classificando Jerome Powell como “incompetente” e exigindo uma queda drástica, o Fed dá sinais claros de que seguirá com parcimônia.

Quando Trump afirma que “é perfeito para cortar” e prediz “um grande corte” na reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), está mais vendendo expectativa do que realidade. A taxa de juros básica nos Estados Unidos está entre 4,25% e 4,50%, nível já considerado por muitos como ambicioso para uma redução vigorosa neste momento. Analistas convergem para um corte suave de 25 pontos-base; cortes maiores, como de 50 pontos-base, parecem muito menos prováveis dadas as incertezas.

Além disso, a tentativa de Trump de alterar o perfil do conselho do Fed, tirando Lisa Cook para colocar alguém mais alinhado com sua visão de cortes agressivos, falhou. Uma corte federal confirmou que o governo não pode remover Cook, garantindo que ela participe da próxima reunião do FOMC. Esse revés institucional mostra que, embora Trump tente moldar o ambiente regulatório ao seu gosto, há limites legais e institucionais que resistem.

Há também quem espere que figuras internas, como Stephen Miran (assumindo temporariamente a cadeira de Adriana Kugler), tragam vozes que apoiem cortes no tom, citando inflação moderada e um mercado de trabalho que parece indicar sinais de desgaste. Em agosto, foram criados apenas 22 mil empregos, e revisões recentes mostraram que o crescimento real do emprego foi bastante menor do que relatado inicialmente.

Mesmo com isso, o Fed provavelmente optará por cortar pouco desta vez, mais como um gesto para aliviar expectativas do que como uma medida resolutiva. Powell deverá enfatizar no comunicado que esse ajuste é resultado de um equilíbrio delicado: entre os riscos de desaceleração no trabalho, pressões inflacionárias ainda presentes, e a necessidade de preservar credibilidade institucional.

Do ponto de vista analítico, Trump comete dois equívocos centrais:

1) subestimar a inércia institucional do Fed, que não responde apenas a pressões políticas, mas (e principalmente) a dados econômicos.

2) inflar expectativas quanto ao impacto que um corte agressivo teria na economia e no humor dos mercados.

No fim das contas, mesmo que um corte de 25 pontos-base ocorra, será mais simbólico do que transformador, e provavelmente insuficiente para atender à demanda de políticas mais estimulativas, muito menos de quem espera que a política monetária seja usada como ferramenta de impulsionamento político imediato.

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