Internacional Wall Street
Mercado Americano Hoje: Por Que o Fed Está Dividido
Análise completa do S&P 500, Nasdaq, inflação em 3% e a decisão de juros em dezembro
20/11/2025 11h36 Atualizada há 3 meses
Por: Redação

Wall Street vive uma semana singular. Enquanto alguns investidores olhavam para dados de emprego surpreendentes e ganhos recordes da Nvidia, outros olhavam para a ata do Federal Reserve e enxergavam sinais de que o banco central estava indo devagar demais com os cortes de juros – ou que talvez já tivesse ido longe demais.

Era como se o mercado estivesse participando de um debate interno sobre qual seria o próximo passo para a maior economia do mundo. E esse debate, não surpreendentemente, resultou em mercados que oscilavam entre ganhos modestos e quedas pontuais, sem a convicção clara que você normalmente espera ver quando há um grande tema de consenso no mercado.

Se você estava acompanhando Wall Street durante esses últimos dias de novembro – especialmente entre os dias 18 e 20 – provavelmente sentiu como se estivesse em um tessitura de fios muito frágeis. Um fio era a possibilidade de mais cortes de juros. Outro era a questão de saber se as ações de tecnologia, que tiveram um ano extraordinário, não estavam se tornando caras demais. E um terceiro, talvez o mais frágil de todos, era a questão fundamental sobre a força real do mercado de trabalho americano.

Essa encruzilhada é onde o mercado americano se encontra neste momento, e merece uma análise detalhada.

A Ata do Federal Reserve: A Linha de Falha que Ninguém Queria Ver

Se há um documento que captura perfeitamente a situação atual do mercado americano, é a ata da reunião do Federal Reserve de 28 e 29 de outubro, divulgada na quarta-feira (19). Aquela reunião resultou em um corte de juros de 0,25 ponto percentual, levando a taxa para a faixa de 3,75% a 4,00% ao ano. Isso pode não parecer dramático de fora, mas para os participantes do mercado, foi um documento fundamental.

A questão crucial é que a ata revelou uma divisão clara e profunda entre os membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC). Dois membros votaram contra o corte. Um deles teria preferido reduzir os juros em 0,50 ponto percentual – ou seja, tinha uma posição mais "dovish" (favorável a juros baixos). O outro teria preferido manter os juros onde estavam – uma posição mais "hawkish" (favorável a juros altos).

Mas aqui está o ponto crucial: a ata mostra que mesmo entre aqueles que votaram a favor do corte, havia uma divisão significativa sobre se era de fato a decisão certa. O documento afirma literalmente: "Ao discutir o curso da política monetária no curto prazo, os participantes expressaram pontos de vista bastante diferentes sobre qual decisão seria mais apropriada na reunião de dezembro".

Quando um banco central está tão dividido, isso geralmente significa que o caminho à frente é incerto. Não é uma situação em que o banco central tem um plano claro e está simplesmente executando-o. É uma situação em que há questões fundamentais sendo debatidas.

Qual é a questão fundamental? A inflação.

Jerome Powell, o presidente do Federal Reserve, fez uma declaração que deveria ser lida cuidadosamente por qualquer um que esteja tentando entender para onde o mercado se move a seguir. Powell disse: "Houve opiniões muito diferentes sobre como proceder em dezembro. Uma nova redução na taxa de juros da política monetária na reunião de dezembro não é uma conclusão precipitada – longe disso".

Deixe-me traduzir o que isso significa em linguagem clara: não há consenso de que o Fed deva cortar juros em dezembro. De fato, há uma chance legítima de que o Fed não corte juros em dezembro. Isso é uma mudança dramática em relação a onde as expectativas do mercado estavam há apenas algumas semanas.

Duas semanas atrás, o mercado estava precificando uma probabilidade de mais de 90% de que o Fed cortaria juros em dezembro. Após a divulgação da ata, essa probabilidade caiu para aproximadamente 50%. Isso significa que agora é praticamente uma moeda ao ar – o mercado está basicamente dizendo que é uma votação 50-50 no Fed sobre se haverá um corte em dezembro ou não.

Por que essa divisão? Porque os membros do Fed estão muito preocupados com a inflação. A ata mostra que "uma parte do colegiado espera dados que mostrem uma evolução da economia para justificar um novo corte. Porém, na atual conjuntura, alguns diretores acreditam que não há por que mexer mais nos juros em 2025".

Deixando de lado a linguagem técnica, isso significa: alguns membros do Fed acreditam que a inflação ainda está longe demais de seus objetivos para continuar cortando juros. Eles acham que devem parar e esperar para ver como as coisas evoluem.

Essa é uma mensagem diferente da que o mercado estava ouvindo há alguns meses, quando todos pareciam estar em acordo de que haveria um ciclo de cortes graduais. Agora, há um "coro crescente de falcões, centristas e até mesmo de participantes do FOMC anteriormente dovish" que parecem estar convencidos de que os dados "provavelmente não justificarão um corte nas taxas".

A Inflação Persiste: O Fantasma que Não Quer Desaparecer

Para entender por que o Fed está tão dividido, você precisa olhar para os números de inflação.

A inflação nos Estados Unidos continua sendo um problema que não desaparece rapidamente. A taxa anual de CPI (Índice de Preços ao Consumidor) subiu para 3,0% em setembro, a taxa mais alta desde janeiro. Isso quer dizer que depois de vários meses de progresso na redução da inflação, as coisas começaram a ir na direção errada novamente.

O Fed tem uma meta de inflação de 2,0%. Isso significa que a inflação atual está 1 ponto percentual inteiro acima da meta – isso é uma diferença muito significativa quando se fala de inflação. Quando você está 0,1 ponto percentual acima da meta, pode parecer trivial. Quando você está 1 ponto percentual acima, você começa a se preocupar seriamente.

O núcleo do CPI – que exclui alimentos e energia, que são muito voláteis – também continua elevado. Em 12 meses, o núcleo do CPI está em torno de 3,3%. Novamente, quando a meta é 2%, estar em 3,3% é uma situação que exige atenção.

A questão é: por que não está caindo mais rápido? Os economistas têm uma resposta. A demanda nos EUA continua forte. O PIB cresceu a 3% no último trimestre. O mercado de trabalho ainda tem oferecido empregos em quantidade razoável, ainda que o ritmo tenha desacelerado. Quando você tem demanda forte e oferta limitada, você tem pressão inflacionária.

Essa pressão inflacionária é exatamente o tipo de coisa que faz um banco central ser cauteloso sobre cortar juros. Se você corta juros quando a inflação ainda está acima da meta, você está efetivamente facilitando as pressões inflacionárias. Você está dizendo aos tomadores de empréstimo que os juros vão ficar baixos por mais tempo, o que os encoraja a pedir emprestado mais, o que aumenta a demanda, o que alimenta a inflação.

Portanto, há uma lógica clara para por que o Fed está sendo cauteloso. Mas há também uma lógica clara para por que o mercado estava esperando que o Fed continuasse cortando juros – porque a economia está desacelerando, o mercado de trabalho está enfraquecendo, e em um ambiente assim, você normalmente gostaria que o banco central aliviasse a pressão reduzindo os juros.

É exatamente esse conflito que está causando a divisão observada na ata do Fed e a volatilidade observada nos mercados.

O Payroll e o Mistério do Mercado de Trabalho Americano

Agora, há uma complicação adicional que torna toda essa situação ainda mais complexa. Na quinta-feira (20), o Departamento de Estatísticas do Trabalho finalmente divulgou o relatório de emprego de setembro – que tinha sido adiado de sete semanas porque o governo dos EUA esteve em paralisação.

Os números foram: 119 mil empregos criados em setembro. Isso foi bem acima das expectativas de 50 mil. Também foi uma recuperação expressiva em relação a agosto, quando 4 mil empregos foram perdidos. Então, a primeira leitura foi otimista: talvez o mercado de trabalho seja mais forte do que parecia.

Mas aqui está onde fica complicado. Aquele relatório de setembro foi coletado antes do mercado de trabalho começar a desacelerar mais significativamente. Os dados que chegam desde então sugerem um mercado de trabalho que está perdendo momentum. A taxa de desemprego em setembro foi de 4,4%, acima das expectativas de 4,3%.

Além disso, há uma questão metodológica importante: o BLS cancelou completamente o relatório de emprego de outubro. Nunca tinha feito isso antes em sua história moderna. A razão? A paralisação do governo impediu a coleta de dados necessários para calcular a taxa de desemprego. Como resultado, não há um retrato visual e atualizado de como o mercado de trabalho estava em outubro.

Os relatórios de outubro e novembro serão combinados e divulgados após a última reunião do Fed do ano – em 16 de dezembro. Isso é muito ruim para o Fed, porque significa que quando o Fed se reúne em 9 e 10 de dezembro, o último dado completo de emprego que terá será referente a setembro.

Você pode imaginar quanto isso complica as decisões do Fed. Se você é um membro do Fed tentando decidir se deve cortar juros em dezembro, e o último dado de emprego que você tem é referente a setembro – mais de dois meses atrás – você fica muito cauteloso. Você não tem informação suficiente para fazer uma decisão confiante.

Essa falta de dados é provavelmente um dos maiores contribuintes para a incerteza que está afetando os mercados agora. Os participantes do mercado não têm um retrato claro da saúde do mercado de trabalho, então estão operando em um estado de incerteza que está refletido na volatilidade que vemos.

A Nvidia e o Debate sobre a Bolha de Inteligência Artificial

Enquanto tudo isso estava acontecendo no front macro, havia outra história se desenrolando no mundo das ações de tecnologia.

A Nvidia divulgou seus resultados no final do dia de quarta-feira (19). Os números foram, sem questão, extraordinários. Lucro líquido de US$ 31,9 bilhões no trimestre (aumento de 65% ano a ano), receita total de US$ 57 bilhões (aumento de 62%), e receita de data center de US$ 51,2 bilhões (aumento de 66%, acima das expectativas).

Jensen Huang, o CEO, foi muito específico: "As vendas do Blackwell estão fora de série, e as GPUs para nuvem estão esgotadas". Isso significa que a Nvidia está literalmente vendendo tudo que consegue produzir no segmento que realmente importa para a empresa.

Mas aqui está o ponto curioso: apesar desses resultados extraordinários, as ações da Nvidia não explodiram. Subiram 3% ou 4%, o que em dias normais seria considerado um bom ganho. Mas você esperaria que resultados dessa magnitude levassem a um ganho muito maior.

Por quê? Porque existe uma preocupação legítima de que as expectativas para a Nvidia já estão tão altas que mesmo resultados extraordinários não conseguem bater essas expectativas.

As ações da Nvidia acumulam ganhos de 38,9% apenas em novembro. Em 2024, subiram 239%. Nos últimos dois anos, acumulam ganhos de mais de 170%. Quando você tem retornos dessa magnitude, a questão que você começa a fazer é: e agora? A que preço essas ações estão oferecendo um bom valor?

De fato, as ações da Nvidia já caíram mais de 10% apenas em novembro. Isso significa que depois de subir drasticamente, começaram a cair, e as pessoas começaram a questionar se havia uma bolha se formando.

Um comentário que circulou durante a semana capturou bem essa preocupação: "Vemos todas as características de bolha, sem que sistema de governança global tenha melhorado desde a última grande crise financeira global". É uma observação pessimista, mas reflete a sensação de que as ações de IA ficaram muito aquecidas muito rápido.

Não é que as pessoas acham que a Nvidia é uma empresa ruim. É que a Nvidia começou a ser negociada a um preço que reflete expectativas praticamente perfeitas para muitos anos no futuro. Se qualquer coisa correr um pouco menos que perfeito, o preço pode cair significativamente.

Isso, por sua vez, está levando os investidores a se tornarem mais cautelosos com todo o complexo de IA. Se a Nvidia – a empresa mais importante no complexo de IA – estava perdendo valor em novembro, por que não deveriam estar cautelosos também com Broadcom, Applied Digital, Palantir e outras empresas cujas ações também explodiram?

Essa é uma pergunta legítima, e é exatamente o tipo de pergunta que leva a dias como terça-feira (18), quando o Nasdaq caiu 1,2%.

O Índice de Volatilidade (VIX): A Medida do Medo

Um indicador que merece atenção neste momento é o VIX, conhecido como o "índice do medo" do mercado americano. O VIX mede a volatilidade esperada para os próximos 30 dias baseado nos prêmios pagos em opções de venda e compra do S&P 500.

O VIX operava em níveis moderados durante a semana – não tão baixo que sugira confiança extrema, mas também não tão alto que sugira pânico total. Isso é apropriado para o ambiente. O VIX deveria estar em níveis moderados quando há incerteza legítima sobre o futuro, mas não há evidência de que o sistema financeiro está em risco ou que há uma recessão iminente.

Para referência, níveis do VIX são interpretados assim:

Durante a semana, o VIX operava em níveis que sugeriam preocupação, mas não pânico. Isso reflete perfeitamente o sentimento que descrevemos: há preocupações legítimas (Fed dividido, inflação ainda elevada, Nvidia caindo), mas não há uma sensação de que tudo está desabando.

O Contexto Macro

Para completar o quadro, é importante entender o contexto macroeconômico mais amplo nos Estados Unidos.

A economia cresceu a 3% no terceiro trimestre de 2025, o que é sólido. Mas essa taxa de crescimento vem desacelerando. As revisões de dados de emprego mostram que nos 12 meses até março, cerca de 911 mil empregos a menos foram criados do que o originalmente reportado. Isso é uma revisão significativa para baixo.

Os economistas estimam que a economia precisa apenas criar entre 30 mil e 50 mil empregos por mês para acompanhar o crescimento natural da população. Compare isso com 150 mil empregos por mês em 2024, e você vê a quantidade de desaceleração que está acontecendo.

Essa desaceleração é esperada e, até certo ponto, desejável. A economia estava superaquecida, inflação era alta, e um resfriamento era necessário. Mas o desafio é fazer um resfriamento controlado – o que os formuladores de política chamam de um "soft landing". Não é um "hard landing" (recessão), mas também não é um crescimento robusto e contínuo.

O risco é que o Fed, ao ser muito cauteloso com os cortes de juros, poderia impedir o resfriamento controlado e, em vez disso, criar um hard landing. Esse é o trade-off que o Fed está navegando.

O Que Acontece Agora? Os Catalisadores Próximos

Então, para onde vai o mercado a partir daqui?

O grande catalisador imediato é a reunião do Federal Reserve em 9 e 10 de dezembro. Nessa reunião, o Fed provavelmente manterá os juros onde estão (3,75% a 4,00%), com base na ata que foi divulgada. Mas o comunicado da reunião será crucial – o Fed vai manter a porta aberta para cortes futuros, ou vai fechar?

Outro catalisador é o relatório de emprego de novembro, que será divulgado em 16 de dezembro, depois da reunião do Fed. Esse relatório vai combinar os dados de outubro e novembro em um único número. Se esse número for fraco, o mercado vai se sentir ansioso sobre o Fed ter sido muito cauteloso. Se for forte, o mercado vai aceitar que o Fed está agindo corretamente.

Também há a questão da inflação. Os próximos lançamentos de dados de CPI serão importantes para determinar se a inflação está realmente começando a cair novamente ou se vai permanecer teimosamente elevada.

O Sentimento do Mercado: Esperança Cautelosa

Se você tentar resumir o sentimento do mercado americano em três palavras, seria "esperança cautelosa".

Há esperança porque:

Há cautela porque:

É exatamente a combinação certa de esperança e cautela que você esperaria ver em um mercado que está navegando por um período de transição.

O Quadro Mais Amplo

O mercado americano não está em crise. Não há sinais de que o sistema financeiro está em risco. O crescimento continua, os lucros continuam, e a economia continua funcionando.

Mas o mercado também não está em euforia despreocupada. Investidores estão questionando preços, questionando o tamanho dos movimentos de IA, e questionando se o Fed está fazendo a coisa certa.

Essa é, na verdade, a marca de um mercado saudável. Quando há sempre um lado claramente certo e um lado claramente errado, o mercado costuma estar no caminho para uma bolha. Quando há debate genuíno, incerteza genuína, e uma avaliação honesta de riscos, o mercado tende a estar funcionando como deveria.

Portanto, enquanto essa semana foi volátil e incômoda para alguns investidores, ela foi na verdade um exemplo de um mercado fazendo seu trabalho: processando informação, reavaliando riscos, e buscando um equilíbrio entre otimismo e cautela.

O que acontecer nos próximos dias, especialmente com o payroll de setembro sendo divulgado e a reunião do Fed se aproximando, dirá muito sobre para onde o mercado americano irá a seguir.