O cenário macroeconômico dos Estados Unidos nas últimas semanas foi dominado por um tema central: o shutdown mais longo da história americana. A paralisação parcial do governo, resultado do impasse entre Senado e Câmara sobre o teto de gastos e a política fiscal, comprometeu o funcionamento de agências federais, atrasou pagamentos e reduziu a produtividade no setor público.
Estima-se que, a cada semana de paralisação, o Produto Interno Bruto dos EUA tenha perdido entre 0,1 e 0,2 ponto percentual de crescimento, conforme cálculos do Congressional Budget Office (CBO). Além dos efeitos diretos sobre o consumo das famílias e o atraso em contratações públicas, houve impacto sobre a confiança dos consumidores e investidores.
No entanto, nos últimos dias, o avanço das negociações no Senado trouxe uma guinada no sentimento do mercado. A perspectiva de reabertura do governo federal e de um pacote fiscal para evitar nova paralisação reacendeu o otimismo mundial.
O início da semana foi marcado por otimismo generalizado. O S&P 500 subiu 0,13%, o Dow Jones avançou 0,16%, e bolsas europeias e asiáticas acompanharam o movimento. Os investidores enxergam no acordo uma oportunidade de retomada dos relatórios econômicos paralisados — especialmente empregos, inflação e gastos públicos — fundamentais para as decisões futuras do Federal Reserve.
Esse fator é crucial, pois o Fed tem sinalizado crescente propensão a reduzir as taxas de juros já em dezembro. Com o governo voltando a operar normalmente, haverá maior clareza sobre o estado real da economia americana e sobre a trajetória de crescimento do PIB no quarto trimestre.
As projeções mais recentes indicam que o PIB dos EUA deve crescer entre 2,1% e 2,4% anualizado no quarto trimestre, revertendo parcialmente a desaceleração provocada pelo shutdown. Setores como construção civil, indústria e varejo começaram a sentir melhora nos indicadores antecedentes, e índices de confiança empresarial, como o PMI, já mostram retomada de encomendas e expansão de empregos.
O índice de confiança do consumidor da Universidade de Michigan também subiu nas últimas leituras, refletindo a retomada do otimismo com o cenário fiscal e o desemprego baixo, que permanece próximo de 3,9%.
Entre os ativos de risco, as criptomoedas foram o destaque. O Bitcoin disparou 1,5%, negociando-se em torno de US$ 106.260, em um movimento técnico que reacende a tendência de médio prazo. O otimismo fiscal e a expectativa de novo estímulo econômico anunciado pelo presidente Donald Trump impulsionaram fluxos institucionais de volta aos ETFs cripto.
Ao mesmo tempo, o XRP — token usado pela Ripple — subiu mais de 8%, impulsionado por rumores de captação bilionária e especulações sobre aprovação de ETFs de pagamento global. Esse movimento reflete o interesse crescente de gestoras e fundos em diversificar suas carteiras em ativos digitais não apenas como especulação, mas como infraestrutura de transferência de valor internacional.
O Ethereum manteve a trajetória de valorização, superando os US$ 3.600, apoiado por influxo expressivo em ETFs americanos. O patrimônio sob gestão dos produtos institucionais de ETH ultrapassou US$ 20 bilhões, consolidando o ativo como o segundo mais relevante em capitalização de mercado. Apesar das saídas registradas em semanas anteriores, o Ethereum mostra resiliência, sustentado por atualizações na camada de execução e interesse em aplicações de tokenização.
Já a Solana manteve nove semanas consecutivas de entradas líquidas em fundos e ETFs — algo raro no universo cripto atual — reforçando sua posição como principal alternativa ao Ethereum. O desempenho positivo das altcoins corresponde diretamente à maior disposição dos investidores ao risco, algo intimamente conectado à perspectiva de fim do shutdown e reativação do ciclo de liquidez.
Em contraste com o otimismo geral, o Nasdaq 100 recuou 0,28%. O motivo: crescente preocupação com avaliação excessiva das ações ligadas à inteligência artificial. Companhias como Nvidia, Microsoft e Salesforce sofreram ajustes após meses de valorização explosiva, marcando o que analistas interpretam como fase natural de realização de lucros.
Há temores de que a expansão agressiva nos múltiplos de empresas de AI não encontre sustentação no crescimento real de lucros. Mesmo assim, a curva de aprendizado da tecnologia segue em avanço, e investidores de longo prazo ainda consideram o setor o mais promissor da década.
O ouro registrou alta de 0,24%, voltando a atrair fluxos de proteção em meio à volatilidade global. Com o Fed sinalizando maior probabilidade de corte de juros em dezembro, o metal — que não gera rendimento — ganha atratividade relativa frente a títulos do Tesouro. O preço acima de US$ 4.000 tem sido interpretado como movimento defensivo, mas também como reflexo da busca por diversificação em tempos de incerteza política.
O petróleo Brent recuperou leve terreno, subindo 0,18%, cotado em US$ 63,75. A perspectiva de reabertura do governo americano implica retomada de contratos de compra pública e maior demanda de combustível. Além disso, rumores de cortes voluntários de produção por países da OPEC+ colaboraram para estabilizar cotações, mesmo diante do aumento de oferta global.
O índice DXY, que mede a força do dólar frente a uma cesta de moedas, mostrou nova alta, refletindo o maior otimismo sobre a economia dos EUA e a postura cautelosa do Fed. O euro/dólar recuou 0,04%, operando próximo de 1,16. Operadores do mercado cambial permanecem atentos aos dados inflacionários e à definição final das negociações do shutdown, que poderão reorientar o fluxo de capitais.
Para o Brasil e outras economias emergentes, o fortalecimento do dólar costuma gerar pressão sobre moedas locais e fluxos de saída em busca de segurança. Porém, o ambiente atual ainda sugere equilíbrio graças à alta nos preços das commodities e maior entrada de investidores estrangeiros.
O governo do presidente Donald Trump tem defendido a autorização de novos cheques de estímulo e incentivos fiscais para sustentar o consumo doméstico. Essa proposta, se aprovada, pode adicionar até 0,5 ponto percentual ao PIB dos EUA em 2026. O plano prevê cortes temporários em impostos sobre empresas e famílias de renda média, além de aceleração de investimentos públicos em infraestrutura.
Tal movimento é visto como tentativa de manter o crescimento acima de 2% mesmo diante da desaceleração global e das tensões geopolíticas com a China e o Oriente Médio.
O consenso entre economistas de Wall Street é de que o PIB americano poderá surpreender positivamente no primeiro trimestre de 2026. A reabertura completa das agências, o estímulo fiscal e a política monetária mais acomodatícia formam um tripé de apoio ao crescimento.
A partir desse ponto, os desafios se deslocam para o controle da dívida pública, que já ultrapassa 130% do PIB, e para o equilíbrio entre juros mais baixos e inflação contida. Contudo, por ora, os mercados preferem celebrar o alívio momentâneo — e a volta da previsibilidade.