Quando a inflação desacelera por alguns meses, o investidor tende a relaxar. Em 2025, fazer isso seria um erro. O IPCA voltou a ganhar fôlego em setembro, as medidas de núcleo seguem desconfortáveis e a política monetária terá de permanecer apertada por mais tempo do que gostaríamos. Esta é uma leitura de opinião, com base nos dados oficiais mais recentes, sobre onde estamos e para onde vamos.
Setembro trouxe alta de 0,48 por cento no IPCA, revertendo a deflação de agosto. No acumulado do ano, a inflação soma 3,64 por cento. Em 12 meses, cravou 5,17 por cento, acima do teto de 4,5 por cento da banda. Ou seja, outro ano caminhando para descumprimento do sistema de metas, apesar de ajustes pontuais nas projeções.
Habitação virou a âncora do mês. O grupo subiu 2,97 por cento, e a energia elétrica residencial avançou 10,31 por cento após o fim de créditos temporários. A conta de luz é o exemplo mais didático de preço administrado que altera o humor do índice rapidamente.
Alimentação e bebidas continuam ajudando. Queda de 0,26 por cento em setembro, quarto mês seguido de alívio, com normalização de safras e clima menos adverso. Bom para o bolso, mas insuficiente para compensar pressões em outros grupos.
Serviços seguem teimosos. Nos itens intensivos em mão de obra, a inflação roda perto de 6 por cento em ritmo anualizado. É o reflexo de um mercado de trabalho aquecido, com desemprego baixo e salários reais em alta, em contraste com uma produtividade que não acompanha.
As medidas que retiram choques voláteis seguem acima do conforto:
EX0 em 12 meses: 4,02 por cento
EX3 em 12 meses: 4,36 por cento
Média dos núcleos: 4,34 por cento
Em bom português, a parte “grudenta” da inflação ainda não convergiu para o centro da meta.
O próprio Banco Central descreve o mercado de trabalho como exuberante. Desemprego na mínima do ciclo, geração de vagas formais positiva e salários reais subindo pressionam serviços. Estudos que reponderam o IPCA por intensidade de mão de obra mostram exatamente isso: itens com maior conteúdo de trabalho rodam próximos de 5 por cento em 12 meses, acima do índice cheio recente.
Nos administrados, cerca de um quarto da cesta segue com dinâmica própria. Energia oscila conforme bandeiras e decisões regulatórias, combustíveis dependem de paridade e impostos, e transportes públicos ainda são reajustados por contratos indexados. Para 2025, a projeção desse bloco gira acima do IPCA cheio, o que dificulta a desinflação.
O consenso de mercado indica IPCA próximo de 4,8 por cento em 2025, com lenta aproximação do centro da meta a partir de 2027. O próprio Banco Central estima probabilidade elevada de estouro da banda neste ano e ainda vê risco relevante para 2026. Traduzindo a estatística: a âncora nominal melhorou um pouco, mas segue solta.
Principais riscos de alta:
Mercado de trabalho quente por mais tempo
Fiscal frágil e expectativas desancoradas
Câmbio volátil
Reajustes em administrados
Riscos de baixa:
Commodities mais comportadas
Atividade arrefecendo
Efeitos defasados dos juros altos aparecendo
Com núcleos desconfortáveis e expectativas teimosas, o Copom mantém a Selic em patamar restritivo de 15 por cento ao ano. O recado é direto: ficará alta por um período prolongado até que a convergência seja consistente. O mercado projeta cortes graduais a partir de 2026, com a taxa ainda de dois dígitos em 2027. Não é um aperto simbólico. É uma estratégia de contenção.
A adoção da meta contínua de 3 por cento, avaliada mês a mês em 12 meses, melhora a comunicação e reduz ruídos. Não resolve, porém, pressões vindas de salários, serviços e administrados. Regra de metas é bússola. Para chegar ao destino, é preciso vento fiscal a favor e uma economia que aceite desacelerar um pouco.
Renda fixa: carregar prêmio real continua fazendo sentido. Títulos atrelados à inflação ajudam na proteção, desde que a duração caiba no seu apetite a oscilação. Pós-fixados seguem como núcleo de liquidez.
Ações: preferência tática por empresas com repasse de preços, contratos indexados e balanços com baixa alavancagem. Setores muito sensíveis ao ciclo de juros pedem seletividade.
Caixa e disciplina: ter liquidez para aproveitar assimetrias importa. Giro sem tese só aumenta custo.
Cenário base: desinflação lenta e juros altos por mais tempo. Prepare a carteira para 18 a 24 meses de paciência, não para um trimestre de euforia.
O Brasil de 2025 não é um país fora de controle. É um país lidando com uma inflação que se tornou mais resistente, especialmente em serviços, e que exige juros altos por mais tempo. A convergência até a meta parece factível apenas adiante, quando a economia perder um pouco de embalo, a política fiscal colaborar e os administrados pararem de surpreender. Até lá, o investidor que respeitar o básico tende a dormir melhor: proteção contra inflação, prêmio real bem carregado e ações escolhidas com lupa.