Macroeconomia EUA
Trump Reacende Guerra Tarifária e Testa Resiliência dos Mercados
Investidores já não lutam apenas contra os juros: tarifas, política e narrativas saturadas colocam à prova a paciência de Wall Street
26/09/2025 10h23 Atualizada há 5 meses
Por: Igor Silva

Por mais que Wall Street tenha se acostumado a volatilidade, os últimos dias mostram que o investidor global voltou a lidar com um triplo choque: tarifas agressivas, inflação persistente e um Federal Reserve menos previsível. O pano de fundo é a decisão de Donald Trump de dobrar a aposta protecionista, com tarifas de 100% sobre medicamentos de marca, além de caminhões e móveis, em um movimento que não mira apenas competidores, mas redesenha cadeias globais de produção.

A agenda comercial voltou a ser arma política, e o mercado terá de reprecificar setores inteiros. A queda abrupta em farmacêuticas internacionais mostra como a disrupção tarifária não se limita ao eixo EUA-China, mas ameaça a lógica da globalização que manteve margens e preços sob relativo equilíbrio.

O PCE de agosto, em linha com o esperado (2,7% no ano), trouxe alívio imediato aos futuros, mas está longe de encerrar o debate. Para um Fed que insiste em cortar juros de forma gradual, qualquer sinal de inflação "grudenta" reforça a cautela. Ou seja: o investidor que esperava um ciclo acelerado de afrouxamento pode se decepcionar.

O curioso é que a força do PIB e do mercado de trabalho alimenta um paradoxo: a economia resiste bem, mas essa resiliência pode manter os juros altos por mais tempo.

As ações de tecnologia, que vinham sendo o combustível da alta em 2025, mostram fadiga. O tropeço de Oracle e Tesla revela a primeira rachadura numa narrativa que parecia invencível. Sim, Nvidia ainda encontra fôlego e Intel se beneficia do flerte com a Apple, mas há sinais de saturação no apetite por múltiplos cada vez mais esticados.

O mercado começa a se perguntar: será que a revolução da IA está sendo precificada rápido demais?

Se as bolsas ainda titubeiam, o mercado cripto já sentiu o golpe. Bitcoin, Ethereum e XRP sofreram liquidações bilionárias, com vencimentos de opções expondo a fragilidade do sentimento. O discurso de “comprar na queda” resiste, mas pode ser um clássico contrarian signal: quando o otimismo resiste diante de fundamentos frágeis, o risco de correção aumenta.

Enquanto isso, os ativos clássicos de proteção seguem demandados. O ouro paira perto de recordes, não apenas por medo, mas como símbolo da busca por algo sólido num mundo cada vez mais instável. O petróleo, embora contido pela demanda global, ganha sustentação nos cortes russos e no risco geopolítico.

E o cobre, impulsionado por choques de oferta na Grasberg, lembra ao investidor que a transição energética continua vulnerável a gargalos físicos, e que inflação de custos não é um fantasma do passado.

O que se vê, portanto, não é apenas volatilidade conjuntural, mas um dilema estrutural:

O investidor hoje precisa escolher entre acreditar na resiliência do ciclo, e manter exposição a risco, ou aceitar que estamos às vésperas de um ajuste mais amplo nas narrativas que sustentaram os últimos ralis.

Trump pode ter reacendido a guerra tarifária, mas é o Fed, e a paciência dos investidores, que decidirão até onde essa onda vai.