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A revolução energética da IA acelera com US$ 1 trilhão em baterias que vão transformar a rede elétrica
Impulsionado pela alta demanda por energia e pelo avanço das renováveis, setor de baterias caminha para receber mais de US$ 1 trilhão em investimentos até 2035
01/08/2025 07h24 Atualizada há 6 meses
Por: Cláudia Lívia

Há apenas dez anos, armazenar energia em larga escala parecia um sonho distante. O alto custo e as limitações tecnológicas tornavam inviável a adoção de baterias como suporte às fontes renováveis, que sofrem com a intermitência natural do sol e do vento. Hoje, esse cenário mudou radicalmente.

O rápido barateamento das baterias e o salto em eficiência transformaram o armazenamento em peça-chave para garantir a estabilidade da rede elétrica, especialmente em um momento em que o consumo de energia nos Estados Unidos cresce de forma acelerada. A retirada gradual de incentivos fiscais para solar e eólica também reposiciona as baterias como protagonistas na nova matriz energética.

Boa parte da energia gerada atualmente é desperdiçada quando a demanda está abaixo da capacidade de produção. As baterias, incentivadas por legislações como o pacote "One Big Beautiful Bill", mantêm esse excedente armazenado para uso posterior, seja em picos de consumo, quedas em usinas ou períodos sem sol e vento. Aproximadamente metade dos projetos já combina baterias com parques solares ou eólicos, criando uma relação simbiótica entre geração e armazenamento.

Para Izzet Bensusan, CEO da Captona, o cenário sem baterias seria caótico: "As empresas de energia já perceberam que sem essa tecnologia, não é possível manter a rede operando com segurança." Ele alerta que o crescimento da demanda e o avanço das fontes limpas tornam o armazenamento essencial para evitar apagões e garantir eficiência.

Em 2024, os EUA bateram recorde na expansão da capacidade de baterias, chegando a cerca de 26 GW, suficiente para abastecer 20 milhões de residências. A expectativa é que esse número salte para até 150 GW até o fim da década. Em 2025, o Departamento de Energia projeta a adição de quase 19 GW, colocando o país atrás apenas da China. Califórnia e Texas lideram, mas outros estados seguem acelerando seus programas.

O custo das baterias de íon-lítio despencou 75% em dez anos. Agora, tecnologias como sódio-íon, lítio-enxofre e LFP (fosfato de ferro-lítio) ganham força. Essas opções usam materiais mais abundantes nos EUA e funcionam bem na rede, muitas vezes superando a demanda vinda do setor automotivo.

Segundo Cameron Dales, da Peak Energy, que fabrica baterias sódio-íon nos EUA, o setor está diante de um "superciclo" de investimentos: "Mais de US$ 1 trilhão serão investidos globalmente em armazenamento ao longo da próxima década." As novas químicas prometem reduzir a dependência da China e oferecer desempenho superior em ambientes extremos.

O aumento da demanda elétrica é impulsionado, sobretudo, pela expansão de data centers de gigantes como Amazon, Google e Microsoft. Estima-se um crescimento de 25% no consumo doméstico até 2035, e de 60% até 2050. Com menos subsídios, as contas de luz devem subir, mas o armazenamento pode amortecer esse impacto ao suavizar picos de consumo.

Com o gás natural e o carvão enfrentando desafios de fornecimento e as usinas nucleares ainda distantes, renováveis e baterias assumem papel central na nova capacidade elétrica que será adicionada nos próximos anos.

As mudanças recentes nas políticas fiscais também reposicionam as baterias como prioridade, invertendo a lógica anterior: agora, são elas que puxam a expansão solar, e não o contrário. As baterias armazenam de 4 a 6 horas de energia, podendo ultrapassar 10 horas com custo adicional, o suficiente para cobrir os momentos de maior consumo no início da noite.

Empresas como a Lyten apostam em tecnologias de lítio-enxofre feitas em solo americano e europeu, sem minerais críticos controlados pela China, como cobalto e grafite. O objetivo é cortar ainda mais custos e fortalecer a cadeia de fornecimento local.

Diante de uma demanda global crescente e da transição energética em curso, o armazenamento em baterias se consolida como a espinha dorsal de uma nova era elétrica. O setor se prepara para um ciclo de inovação e investimento sem precedentes, que pode reconfigurar de forma profunda a infraestrutura energética mundial.