A sexta-feira (20) foi marcada por forte correção nos ativos brasileiros, com o Ibovespa recuando 1,15% e encerrando aos 137.116 pontos. O movimento de queda não foi isolado. Ele refletiu uma combinação de fatores domésticos e internacionais que vêm pressionando o apetite ao risco e reposicionando as carteiras de investidores.
O principal gatilho para o ajuste foi a decisão surpreendente do Banco Central. Em um cenário de inflação ainda resistente e pressões fiscais no radar, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a taxa Selic para 15% ao ano. Este patamar, o mais elevado em décadas, reflete o esforço da autoridade monetária em tentar conter a deterioração inflacionária e reforçar sua credibilidade diante das expectativas de médio prazo. No entanto, essa elevação drástica dos juros encarece o crédito, desestimula o consumo e penaliza diretamente empresas que dependem de capital intensivo ou financiamento recorrente.
O impacto da alta de juros foi imediato sobre setores domésticos sensíveis a crédito, como varejo, construção civil e infraestrutura, mas também atingiu as gigantes do índice. A Vale registrou queda de 2,6%, pressionada pela baixa nos preços dos metais e pelo receio com a demanda chinesa, seu principal mercado consumidor. Petrobras acompanhou o movimento de realização de lucros, em meio à leve alta do petróleo, mas com o investidor atento ao risco fiscal e à volatilidade política que ainda ronda o setor de óleo e gás.
Outro destaque negativo foi Cosan, que liderou as perdas ao despencar 7%. A companhia já vinha sob pressão pelo ambiente de juros elevados e ainda foi penalizada por um corte no preço-alvo promovido pelo Citi, que revisou para baixo suas projeções diante do novo custo de capital mais alto.
No mercado cambial, o real também sentiu o peso do novo cenário. O dólar subiu 0,45%, encerrando cotado a R$ 5,5249, apesar de ainda acumular leve queda na semana. A combinação de Selic alta — que atrai fluxos pontuais de carry trade — com a piora global elevou a volatilidade na moeda brasileira.
A somatória desses fatores — juros em alta histórica, pressão fiscal interna, commodities em sinal misto e instabilidade geopolítica crescente — desenhou um quadro de elevada cautela para o investidor local. Com a Selic fortemente restritiva e o cenário externo carregado, o mercado entra na reta final de junho com baixa visibilidade e potencial para mais volatilidade.